
Durante muito tempo, parte da arqueologia tratou as florestas tropicais como ambientes pouco favoráveis ao surgimento de grandes centros urbanos. A vegetação atual, porém, pode esconder quase por completo aquilo que existia antes dela. Em Campeche, no sudeste do México, novas evidências mostram uma paisagem que já foi ocupada por cidades, áreas agrícolas e milhares de construções.
Um dos exemplos mais curiosos surgiu longe da imagem clássica do arqueólogo abrindo caminho pela mata. Luke Auld-Thomas, então doutorando em antropologia na Universidade Tulane e pesquisador de arqueologia maia, encontrou os dados de uma cidade desconhecida enquanto pesquisava na internet. Segundo relatou à BBC, o arquivo apareceu quando ele já estava por volta da página 16 dos resultados do Google.
A análise revelou Valeriana, uma grande cidade maia até então não registrada pela comunidade científica. O achado se soma a outras descobertas recentes que vêm mudando a imagem das antigas cidades maias escondidas pelas florestas de Campeche.
Os dados estavam na internet por outro motivo
Auld-Thomas procurava levantamentos LiDAR já existentes quando encontrou um conjunto de dados produzido em 2013. O material não havia sido encomendado por arqueólogos, mas como parte de um projeto de monitoramento ambiental das florestas e das emissões de carbono no México.
Essa origem tornou o levantamento especialmente interessante. Muitos estudos arqueológicos são realizados justamente onde já existem indícios de ruínas importantes. Aqui ocorreu o contrário: as áreas haviam sido escolhidas por razões ambientais, sem a intenção de procurar cidades maias.
Quando Auld-Thomas e colegas reprocessaram os dados, surgiram construções, plataformas, modificações agrícolas e concentrações urbanas. O levantamento cobria cerca de 122 km² de Campeche e revelou 6.764 estruturas pré-hispânicas no conjunto analisado.
O estudo, publicado em 2024 na revista Antiquity, não trata Valeriana apenas como uma cidade isolada. A pesquisa de Auld-Thomas e colegas reforça a ideia de que assentamentos densos e diferentes formas de urbanização estavam amplamente distribuídos pelas terras baixas maias centrais.
Como um laser encontra construções debaixo da floresta
O LiDAR dispara pulsos de laser a partir de uma aeronave e mede o tempo que a luz leva para retornar. Muitos desses pulsos atingem folhas e galhos, enquanto outros alcançam o solo. O processamento dos dados permite separar esses retornos e reconstruir a topografia escondida sob a vegetação.
Pequenas irregularidades que passariam despercebidas durante uma caminhada podem então revelar plataformas, vias e construções. É uma maneira de enxergar a forma do terreno sem precisar remover fisicamente a floresta.
A técnica já havia produzido resultados importantes na arqueologia maia. Em 2018, um grande levantamento encontrou mais de 60 mil estruturas sob a floresta da Guatemala, revelando assentamentos, estradas e áreas agrícolas em escala até então difícil de perceber. A descoberta mostrou o potencial da tecnologia LiDAR na arqueologia maia.
Em 2020, a mesma tecnologia ajudou a identificar Aguada Fénix, no México, um enorme complexo monumental cuja própria dimensão dificultava reconhecê-lo a partir do solo. O caso mostrou que uma estrutura não precisa estar enterrada para permanecer invisível: às vezes ela simplesmente se confunde com a paisagem. O sítio foi apresentado como o maior e mais antigo monumento maia então conhecido.
Valeriana tinha a escala de um grande centro urbano
A área de Valeriana analisada pelos pesquisadores ocupa 16,6 km². Segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História do México, o local reúne vestígios agrícolas e construções características do período Clássico maia, aproximadamente entre 250 e 900 d.C.
Os dados mostram dois grandes núcleos de arquitetura monumental separados por cerca de 2 km, mas ligados por ocupação densa e alterações na paisagem. No maior deles aparecem praças fechadas, uma ampla calçada, pirâmides-templo, uma quadra para o tradicional jogo de bola e um reservatório formado pelo represamento de um curso sazonal de água.
Os pesquisadores também identificaram um provável conjunto arquitetônico do tipo Grupo E, encontrado em antigos centros maias. Sua presença sugere que a origem do assentamento pode remontar a antes de 150 d.C., muitos séculos antes do período em que Valeriana atingiu seu auge.
A densidade chama atenção. Algumas áreas do bloco onde a cidade foi identificada chegavam a 426 estruturas por km². Entre os sítios usados como comparação no estudo, apenas Calakmul apresentava valores maiores.
Estimativas divulgadas após a descoberta indicam que Valeriana pode ter abrigado entre 30 mil e 50 mil pessoas em seu auge, aproximadamente entre 750 e 850 d.C. O número é uma estimativa demográfica baseada na extensão e na densidade do assentamento, não uma contagem direta da população.
Valeriana também não é um caso isolado em Campeche. Pouco antes, arqueólogos haviam identificado Ocomtún, outra grande cidade maia escondida pela vegetação.
Encontrar uma cidade não significa conhecê-la
O LiDAR mostra a forma do terreno, mas não responde sozinho quando cada estrutura foi construída, quem viveu nela ou qual era sua função. Para isso ainda são necessários trabalho de campo, escavações, análise de cerâmica, datações e outros métodos tradicionais da arqueologia.
Quando Valeriana foi anunciada, o próprio INAH ressaltou a necessidade de pesquisas presenciais. Um mapa tridimensional pode revelar onde procurar e qual é a escala do sítio, mas não substitui a investigação arqueológica.
Há ainda um detalhe que torna a história menos parecida com a descoberta de uma cidade completamente isolada. Segundo a Universidade Tulane, Valeriana fica próxima à principal rodovia da região, e moradores cultivavam terras entre suas ruínas havia anos.
Nesse sentido, a cidade estava perdida para a arqueologia, não necessariamente para quem vivia ao redor dela. Suas estruturas continuavam no terreno. O que havia desaparecido era a percepção de que aquelas elevações e formas dispersas pertenciam a um grande centro urbano.
A floresta parece vazia até que os dados mostram outra coisa
Marcello Canuto, professor de antropologia da Universidade Tulane e coautor do estudo, defende que os levantamentos recentes revelam uma paisagem maia composta por cidades, comunidades menores e áreas agrícolas em diferentes densidades. Não se tratava simplesmente de alguns centros monumentais cercados por vastos espaços desocupados.
Esse é um dos aspectos mais relevantes dos 6.764 vestígios encontrados. Eles não pertencem todos a Valeriana. O levantamento reúne áreas rurais pouco densas, regiões periurbanas e um grande núcleo urbano. Justamente por terem surgido em dados coletados para outra finalidade, os resultados ajudam a reduzir o risco de que a arqueologia esteja encontrando grandes cidades apenas porque procura nos lugares onde já esperava encontrá-las.
A civilização maia deixou muitos exemplos de cidades e sistemas de infraestrutura que quase desapareceram visualmente sob paisagens formadas séculos depois. O LiDAR ampliou enormemente a capacidade de reconhecê-los.
Valeriana acrescenta uma possibilidade nova e bastante concreta: algumas das próximas grandes descobertas arqueológicas talvez já tenham sido registradas sem que ninguém percebesse. Podem estar em levantamentos ambientais, mapas antigos ou arquivos produzidos para finalidades completamente diferentes. Neste caso, uma cidade permaneceu escondida por séculos sob a floresta e depois por mais alguns anos dentro de um conjunto de dados que alguém precisou chegar à página 16 do Google para encontrar.
Fonte original: HypeScience
