Biologia

Descoberto peixe que anda: cientistas filmaram um peixe "alienígena" fazendo moonwalk pelo fundo do mar

Por Alessandra Nogueira · 04/09/2026
Descoberto peixe que anda: cientistas filmaram um peixe "alienígena" fazendo moonwalk pelo fundo do mar
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Apoiado em apêndices formados por raios modificados das nadadeiras, o peixe parece “caminhar” sobre o fundo do oceano. (NOAA Office of Ocean Exploration and Research)

Um peixe que conhecemos desde o século 19 revelou um comportamento bizarro. No Mar da China Meridional, Scalicus engyceros foi registrado apoiando o corpo no fundo, andando de lado e, em seguida, se deslocando para trás. Han Tian e seus colegas descreveram o movimento no primeiro vídeo conhecido de um peixe que caminha de ré em um estudo publicado na Ocean-Land-Atmosphere Research.

O achado se destaca exatamente porque não se trata de uma espécie nova. S. engyceros foi descrito em 1872 por Albert Günther e aparece em diferentes porções do Oceano Pacífico. Sua apresentação sempre foi atípica: corpo coberto de placas ósseas, nadadeiras largas, um focinho que exibe apêndices ramificados. O que não sabíamos era como todo esse aparato funcionava com o animal vivo em seu próprio habitat.

É por isso que veículos submersíveis mudaram radicalmente o estudo das profundezas marítmas. Espécimes capturados tem o potencial de revelar anatomia, alimentação e genética, mas raramente mostram que um peixe pode caminhar para trás ou examinar o sedimento com seu focinho. Registros de animais raramente avistados do fundo do mar exibem como a filmagem de organismos no seu habitat tem a capacidade de revelar comportamentos que não são percebidos em uma coleção de espécimes.

Nadadeiras que funcionam como um apoio

Os vídeos foram obtidos com o submersível Shenhaiyongshi e o veículo Haiqin. O primeiro é tripulado e o outro controlado remotamente. Em outro estudo, publicado na revista científica Journal of Fish Biology, Tian e seus colegas relatdescrevem observações feitas do S. engyceros, Paraheminodus murrayi e Peristedion liorhynchus entre 350 e 500m de profundidade.

No S. engyceros, raios modificados em suas nadadeiras peitorais trabalham como pontos de apoio sobre o sedimento do fundo do mar. O peixe avança a diante, desloca-se de lado e recua para trás enquanto mantém as porções maiores das suas nadadeiras abertas, para estabilizar o corpo, aparentemente. Quando detecta uma perturbação ele também tem a capacidade de abandonar este passo lento exploratório e escapar rapidamente, com umpulso sos apêndices e da cauda.

Usar nadadeiras para andar não é uma capacidade exclusiva desta espécie. Há distintos peixes que se apoiam sobre o fundo e outros que conseguem se deslocar fora d’água, utilizando anatomias específicas. Alguns espécimes emblemáticos são os conhecidos peixes com mãos. No S. engyceros, a combinação de movimentos laterais com a marcha para trás registrada nos vídeos é a novidade.

Um focinho que vasculha o sedimento

(NOAA Ocean Exploration, expedição Beyond the Blue, 2025)

Os barbilhões em ramos na parte frontal da boca do animal também parecem ter papel fundamental. Ao caminhar o espécime pvasculha o fundo com estas estruturas tocando pedras e irregularidades. Este comportamento indica ter uma função sensorial, que ajude na navegação e/ou busca por alimento.

Outros membros da família Triglidae mostram outro paralelo que é interessante. Corey Allard e colegas demonstraram na Current Biology que os raios modificados destas nadadeiras em algumas espécies da família Triglidae talvez sirvam para locomoção e para detectar estímulos relacionados a presas enterradas. Não é prova de que S. engyceros possua este o mesmo sistema sensorial, mas evidecia como estruturas ligadas inicialmente à natação tem condições assumir funções adicionais.

Tal versatilidade é causada pela evolução: partes das nadadeiras podem servir para natação, para o equilíbrio, para apoio no fundo e também para a percepção do ambiente.

Vida sob pressão e pouca luz

Por estar entre 350 e 500m de profundidade, S. engyceros está sob muita pressão e pouquíssima luz. Ele reagiu à luz do submersível com um dos olhos, o que levanta a idéia de que o animal ainda tenha algum nível de visão ou suba em algum momento para águas mais rasas.

Com um andar oscilante que lembra o de uma salamandra, o peixe-anjo-das-cavernas cego (Cryptotora thamicola) é capaz de escalar cachoeiras. (Zachary Randall/Florida Museum)

A expedição dos submenrsíveis também filmou Peristedion liorhynchus e Paraheminodus murrayi em locais diferentes, reafirmando o quão diverso é o oceano profundo. As correntes pelos oceanos também poderiam ser explicação para a ampla distribuição de S. engyceros pelo Oceano Pacífico ao transportando suas larvas a muitos km.

Mesmo caminhando com o uso de nadadeiras, S. engyceros não mostra um passo rumo à vida em terra seca. O comportamento apareceu indenpendentemente. O mais interessante é que o animal era conhecido há mais de 150 anos, mas apenas recentemente câmeras submarinas mostraram este curioso comportamento.

Fonte original: HypeScience

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